Habitats

Habitats
Habitats do Parque Natural do Vale do Guadiana.

Guadiana CGV
Vegetação nas margens do Guadiana  (® Cristina Girão Vieira).

Habitats Naturais

PNVG - habitat 5210 - ACC
Matagais arborescentes de zimbro Juniperus turbinata ssp. turbinata (® Ana Cristina Cardoso).
 

A área do Parque Natural inclui importantes matagais arborescentes de zimbro Juniperus turbinata ssp. turbinata (5210) e bosques de azinheira Quercus rotundifolia. Estas manchas de vegetação original encontram-se restringidas às zonas mais inacessíveis, ao longo dos vales das principais linhas de água, onde a intervenção humana pouco se faz sentir.

Importa destacar a vegetação própria dos cursos de água mediterrânicos intermitentes, nomeadamente os matagais ou bosques baixos de loendro Nerium oleander, tamujo Fluggea tinctoria e tamargueira Tamarix spp. associados ao leito de estiagem (92D0), os matos rasteiros de leitos de cheia (6160) e as galerias dominadas por choupos e/ou salgueiros (92A0). Associadas a estes cursos de água ocorrem espécies da flora de interesse comunitário, que têm aqui uma percentagem muito significativa da sua população, tais como Marsilea batardae e Salix salvifolia ssp. australis.

Habitats Naturais, da Diretiva Habitats, existentes no Parque Natural do Vale do Guadiana.
Nota: Com * encontram-se assinalados os habitats prioritários

3 Habitats de água doce
31 Águas paradas
3120 [PDF 305 KB] Águas oligotróficas muito pouco mineralizadas em solos geralmente arenosos do oeste mediterrânico com Isoëtes spp.
3170 [PDF 296 KB] Charcos temporários mediterrânicos *
32 Águas correntes – troços de cursos de água com dinâmica natural e seminatural (leitos pequenos, médios e grandes), em que a qualidade da água não sofre mudanças significativas
3290 [PDF 270 KB] Cursos de água mediterrânicos intermitentes da Paspalo-Agrostidion
 
5 Matos esclerófilos
52 Matagais arborescentes mediterrânicos
5210 [PDF 277 KB] Matagais arborescentes de Juniperus spp.
53 Matos termomediterrânicos pré-estépicos
5330 [PDF 285 KB] Matos termomediterrânicos pré-desérticos
 
6 Formações herbáceas naturais e seminaturais
62 Formações herbáceas secas seminaturais e fácies arbustivas
6220 [PDF 392 KB] Subestepes de gramíneas e anuais da Thero-Brachypodietea *
63 Florestas esclerófilas sujeitas a pastoreio (montados)
6310 [PDF 222 KB] Montados de Quercus spp. de folha perene
64 Pradarias húmidas seminaturais de ervas altas 
6420 [PDF 247 KB] Pradarias húmidas mediterrânicas de ervas altas da Molinio-Holoschoenion
 
9 Florestas
92 Florestas mediterrânicas caducifólias
92A0 [PDF 270 KB] Florestas-galeria de Salix alba e Populus alba
92D0 [PDF 269 KB] Galerias e matos ribeirinhos meridionais (Nerio-Tamaricetea e Securinegion tinctoriae)
93 Florestas esclerófilas mediterrânicas
9330 [PDF 311 KB] Florestas de Quercus suber
9340 [PDF 263 KB] Florestas de Quercus ilex e Quercus rotundifolia 
 

Sistema ribeirinho
Tamarix africana Tamargueira flor CGV PNVG - Nerium oleander Loendros junto mina S Domingos CGV
Tamargueira Tamarix africana em flor e loendros Nerium oleander em margem de ribeira junto da mina de S. Domingos.

 
As ribeiras do Parque Natural, entroncadas entre o relevo acentuado, apresentam grandes variações do seu caudal, sofrendo de um profundo défice hídrico durante os meses de verão. Nesta altura, a água resume-se aos pegos, dispersos ao longo do troço da ribeira. Os pegos são o último reduto de água doce de muitas espécies de fauna, principalmente importantes para a fauna piscícola.

Respondendo a este tipo de condições hidrológicas, o coberto vegetal, que reveste as margens, apresenta-se em formações arbustivas, constituídas, na sua maior parte, por loendro Nerium oleander, tamujo Securinega tinctoria (ou Flueggea tinctoriae tamargueira Tamarix africana. Caminhando para zonas onde o leito de água corre mais largo, a vegetação altera-se, encontrando-se cortinas ripícolas de salgueiros Salix spp. e freixos Fraxinus spp. Estes corredores ripícolas têm uma função importante na consolidação das margens e na diminuição da erosão das águas torrenciais sobre o solo marginal.
 

Matagal mediterrânico
Daphne gnidium Trovisco Cristina Girão Vieira PNVG - matos em encosta - ACC
Trovisco Daphne gnidium (uma planta tóxica) (® Cristina Girão Vieira) e matagal (® Ana Cristina Cardoso). 

 

As zonas de matagal mediterrânico restringem-se aos vales encaixados dos cursos de água do Parque Natural. Podem, no entanto, encontrar-se ainda na face norte da serra de Alcaria Ruiva. Este habitat sobreviveu ao arroteamento das terras e às campanhas do trigo, sendo representativo do que seria a cobertura do solo antes da intervenção humana. O matagal é caracterizado por apresentar um estrato arbustivo bastante diversificado, em conjunto com a esteva Cistus ladanifer, o sargoaço Cistus salvifolius, o tojo-molar Genista triacanthos, o trovisco Daphne gnidium e o gaimão Asphodelus ramosus encontram-se arbustos e árvores como o zambujeiro Olea europea var. sylvestris, o lentisco-bastardo Phillyrea angustifolia, a murta Myrtus communis, a aroeira Pistacia lentiscus e a azinheira Quercus rotundifolia.

Estas espécies de plantas formam, no seu conjunto, uma vegetação densa extremamente importante na conservação dos solos, impedindo o arrastamento das terras pelas águas de escorrência e favorecendo a infiltração das águas no solo, enriquecendo-o. Tendo em conta que são áreas acidentadas, onde as águas de escorrência ganham maior velocidade e maior impacto devastador do solo, este facto reveste-se da maior importância.

Ainda estando muito por conhecer do sentido de orientação das aves, sobretudo nas rotas de migração, é conhecido que as linhas de costa e as linhas de água de maior expressão, como o rio Guadiana, são utilizadas como linhas de orientação sobretudo pelas aves de menores dimensões como os passeriformes. Ao longo do curso de água, em zonas de vegetação bem desenvolvida, procuram refúgio e alimento durante as paragens a que são obrigadas na sua rota migratória. Os matagais, pela diversificação florística que apresentam, fornecem alimento variado, permitindo o acolhimento de várias espécies de aves.

Montados
PNVG - Montado florido CC Quercus rotundifolia Azinheira (2) - CGV
Montado florido (® Carlos Carrapato) bolotas de azinheira Quercus rotundifolia (® Cristina Girão Vieira).

Desde muito cedo que, por ação humana, o bosque mediterrânico primitivo foi dando lugar ao montado. Atualmente, a azinheira Quercus rotundifolia enquanto parte do montado, é um dos elementos residuais desse bosque. O montado é, assim, constituído por povoamentos mais ou menos dispersos de azinheira Quercus rotundifolia ou sobreiro Quercus suber, sendo no seu sub-coberto cultivados cereais de sequeiro, que, normalmente, são alvo de rotação com pastagens.

Na região em que se insere o Parque Natural os montados são predominantemente de azinho, uma vez que o sobreiro é menos resistente a elevadas amplitudes térmicas e à secura estival, características climatéricas desta zona.

Estes povoamentos de sobro e azinho, explorados de forma extensiva, são bastante ricos em fauna, apresentando grande diversidade de espécies de aves. São procurados como local de nidificação, de abrigo ou de alimentação. Podem ser observadas aves tipicamente associadas ao tipo de coberto arbóreo, como as trepadeiras e pica-paus, ou as aves associadas ao estrato herbáceo, pastagem ou cereal. É esta multiestrutura característica dos montados, que diversifica o tipo de nichos ecológicos disponíveis permitindo acolher um grande número de espécies de fauna e flora.

Matos

Cistus ladanifer Esteva CGV Cistus crispus Roselha CGV
Esteva Cistus ladanifer e roselha Cistus crispus em flor (® Cristina Girão Vieira).

 

No Parque Natural ocorrem vastas áreas de charneca arbustiva que são constituídas por plantas adaptadas ao elevado índice de secura que é característico da região. Após o abandono da exploração agrícola extensiva, as terras são colonizadas por espécies arbustivas pioneiras, como são o caso da esteva Cistus ladanifer, do sargaço Cistus monspeliensis, da roselha Cistus crispus, do sargoaço Cistus salvifolius, do rosmaninho Lavandula stoechas e do tojo-molar Genista triacanthos, garantindo, mais tarde, a fixação e desenvolvimento de espécies arbóreas.

Os matos são o exemplo de uma estratégia adaptativa às condições de radiação solar intensa e a uma prolongada estação seca que tornam a água no principal fator limitante. Captar água e aproveitá-la bem são necessidades vitais. Folhas estreitas, como na esteva, ou rugosas, como na roselha, reduzem a superfície de transpiração, enquanto a sua acentuada inclinação limita a radiação solar incidente e o revestimento da página superior por substâncias pegajosas e brilhantes reflete uma grande parte da mesma. As folhas espinhosas e recobertas de pelos do tojo-molar Genista triacanthos desempenham função semelhante. 

Estepe cerealífera
Seara com abetarda CGV
Seara, vendo-se, em primeiro plano, o pescoço de uma abetarda (® Cristina Girão Vieira).

O arroteamento do bosque mediterrâneo original, que, progressivamente, foi dando lugar aos campos de cultivo, alcançou o seu auge com a campanha do trigo nos anos 30 do séc. XX. Este processo deu origem à principal unidade paisagística do Parque Natural: a estepe cerealífera.

Originariamente o termo “estepe” deriva de Stipa, género das plantas que dominam nas estepes naturais da Europa central. A predominância de plantas herbáceas, sobretudo da família das gramíneas, e a constituição faunística induz a uma certa semelhança entre as estepes naturais da Europa central e as estepes cerealíferas. Paralelamente, a constituição avifaunística é muito semelhante, ambas constituídas por espécies bem adaptadas a horizontes visuais vastos. São aves que constroem os seus ninhos ao nível do solo, que apresentam apurados sentidos de visão e audição, hábitos corredores, plumagem críptica (i.e. que se confunde com o meio) e cujas crias apresentam normalmente comportamento nidífugo (i.e. que abandonam o ninho muito cedo).

O sistema de rotação, associado à estepe cerealífera, influencia as espécies de aves que irão ocorrer em cada uma das fases, nomeadamente, seara, pousio e alqueive. O tipo de solos e clima, característicos da região, induzem os agricultores a realizarem um ciclo agrícola próprio, diferente dos restantes do país. Nos dois primeiros anos, planta-se cereal; no primeiro ano, cereal mais exigente do ponto de vista do solo, como o trigo, e, no segundo, um que exija menos do solo, como a cevada. A duração do pousio é variável, mas, regra geral, são três anos e, na primavera do último ano, é deixado em alqueive, até à época de sementeira. Este tipo de ciclo agrícola permite que exista sempre uma boa percentagem do solo numa das fases, tornando a paisagem num verdadeiro mosaico, essencial para estas espécies sobreviverem. 

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