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História | Cultura

História | Cultura
Paisagem e património histórico-cultural do Parque Nacional da Peneda-Gerês.
Espigueiros �AJBarros

Espigueiros (® AJBarros).

Paisagem

No fundo dos vales, o espaço agrícola retalhado, ora verdejante, ora acastanhado, reflete o ritmo das culturas ao longo do ano; subindo as encostas, surgem as bouças e matos que asseguram a lenha, bem como o pasto e o material para a cama do gado; nas zonas mais altas encontram-se as grandes extensões destinadas ao pastoreio extensivo.

Os núcleos populacionais surgem associados às áreas mais aplanadas, com boa exposição solar e próximo das linhas de água.

Para além disso, as construções erguem-se sobre os afloramentos rochosos, libertando os solos mais férteis para a atividade agrícola.

O enriquecimento da paisagem com formas construtivas estendeu-se através dos muros, levadas, calçadas, pontões, espigueiros, fojos, moinhos, abrigos de pastor ou alminhas...

Hoje, somam-se à paisagem milenar grandes planos de água das albufeiras ou elementos lineares como novas estradas. Uma vez mais, a paisagem constrói-se, não só através da ocorrência de fenómenos naturais, mas também da forma como as pessoas a transformam e continuarão a transformar.

Património histórico-cultural

PNPG - Marcos miliários
Marcos miliários da Geira romana (® António Manuel Sousa).

O território do Parque Nacional da Peneda-Gerês foi objeto de uma antiquíssima ocupação humana desde os tempos proto-históricos até aos nossos dias. Assim, facilmente se descortinam ainda vestígios megalíticos, célticos, romanos e, naturalmente, medievais, atestando a contínua e organizada utilização deste espaço.

Muito antes de Portugal existir como nação, há pelo menos cinco mil anos, já nesta região viviam muitos povos e as montanhas abrigavam comunidades agropastoris, construtoras de grandes monumentos funerários como as antas (túmulos cobertos formando mamoas) como as que ainda se podem encontrar nas extensas necrópoles do planalto de Castro Laboreiro, na Portela do Mezio, nas chãs da serra Amarela ou nos altos frios da Mourela, em Montalegre, delimitando espaços sagrados e fronteiras que perduraram, por vezes, até aos nossos dias.

PNPG - Anta - Mezio PNPG - Penedo do Encanto
Anta no Mezio (® António Manuel Sousa) | Penedo do Encanto (® António Manuel Sousa).

Vestígios da arte dessas gentes remotas têm como melhores exemplos o notável santuário rupestre de Gião ou o Penedo do Encanto da Bouça do Colado, em Parada.

Mais tarde, na Idade do Ferro, as comunidades humanas fixaram-se em povoados fortificados. Pontuando a cumeeira dos outeiros ou os esporões de meia encosta, estes castros do norte de Portugal, foram, até à chegada dos romanos, a mais importante referência na paisagem e na cultura. Nos territórios montanhosos do Parque Nacional, ou nas suas imediações, arqueosítios como a Calcedónia, o Castro de Outeiro ou o Castro de Donões, em Montalegre, recordam-nos esses tempos recuados.

No ano 173 a.C. as legiões romanas alcançaram pela primeira vez as terras do noroeste da Hispania. Cerca de 138 a.C. o general Décio Junio Bruto, ultrapassando o Douro, atingiu o rio Minho ocupando este território. Foi necessário, entretanto, mais de um século para pacificar os povos aguerridos e irredutíveis Calaicos, bem defendidos pelas muralhas dos seus castros. A romanização do Conventus Bracaraugustano tem na Geira romana, a via 18 do Itinerário de Antonino, um dos mais relevantes monumentos, quer pela conservação do seu traçado sinuoso quer pelo número e qualidade dos seus miliários epigrafados.


Durante os seguintes e conturbados tempos medievais, a transformação da paisagem e o ordenamento do espaço desenvolveu-se segundo os ritmos e pulsações de uma economia agrária. A ligação à sua terra, um certo desejo de autarcidade, a afinidade com horizontes limitados às linhas do relevo envolvente, explicam em parte a representação fechada e a imagem do território, até nós veiculada pelos documentos medievais que se prefigurava na paróquia/freguesia, unidade religiosa de base territorial, e também em volta do mosteiro, como em Santa Maria de Pitões das Júnias e Ermelo ou do castelo, como o de Melgaço, Castro Laboreiro, Lindoso, Nóbrega, Covide e Montalegre.

Mosteiro Sta Maria de Pitões das Junias - ruinas PNPG - Castelo de Lindos
Santa Maria de Pitões das Júnias | Castelo de Lindoso (® AJBarros).

As comunidades do Parque Nacional da Peneda-Gerês, quase isoladas no meio hostil da serra, desenvolveram uma atividade agropastoril de sobrevivência, conseguindo manter até aos nossos dias uma identidade e uma cultura comunitária cuja origem se perde no tempo e que tão bem estava representada na aldeia de Vilarinho da Furna, hoje submersa pela barragem.

Testemunhos vivos desses períodos distantes são, também, as brandas e inverneiras, as silhas dos ursos e os fojos de lobos (ex. fojo de Fafião e fojo da Portela da Fairra), os arcaicos núcleos rurais e pequenos lugares, dispersos pelas encostas ou encastelados nos montes ou, ainda mais tardios, os espigueiros e as eiras comunitárias, relíquias da introdução da cultura do milho no séc. XVII.

Brandas e inverneiras
As brandas podem ser brandas de cultivo ou brandas de gado e localizam-se no planalto ou em chãs de altitude. São núcleos habitacionais temporários cujos terrenos são usados para a agricultura ou alimentação do gado, durante a primavera/ verão, quando essas áreas de montanha apresentam condições mais favoráveis a essas atividades. Em contraposição às brandas surgem as inverneiras - núcleos habitacionais onde as populações passam o outono e inverno (daí o nome). Presentemente, nessa transumância imposta pelas condições agrestes do meio, nas aldeias que ainda mantém essa migração, as populações apenas transportam consigo o gado e alguns haveres.

Fojo do lobo
Trata-se de uma armadilha usada no passado pelas populações para atrair e matar este mamífero. O lobo-ibérico Canis lupus signatus tem neste Parque Nacional um dos seus últimos refúgios. Trata-se de uma espécie com o estatuto de proteção de "em perigo" de extinção. Segundo ALVARES, et al (2000), os fojos, na maioria dos casos construídos em pedra, serão, talvez, o símbolo máximo das manifestações culturais a nível ibérico da relação, tantas vezes fatal para o lobo, entre as populações humanas e aquele predador. "São estruturas cuja construção envolveu um enorme esforço e grande número de pessoas, sendo, também, verdadeiros monumentos de elevado valor etnográfico, cultural e científico."
A nível mundial, o norte da Península Ibérica parece ser a região onde existem fojos em maior número e variedade". "De acordo com a sua tipologia e modo de utilização existem 5 tipos distintos de fojos: o Fojo simples; o Fojo de Cabrita; o Fojo de paredes convergentes; o Fojo de alçapão; e o “Corral”. À exceção do fojo simples, com distribuição generalizada, as restantes estruturas distribuem-se maioritariamente nas serras agrestes do nor-noroeste Ibérico, estando, aparentemente, ausentes nas zonas baixas e planálticas mais humanizadas". (in Os Fojos dos Lobos na Península Ibérica. Sua Inventariação, Caracterização e Conservação).
 
Silha
Era uma estrutura que protegia os cortiços do apetite por mel do urso-pardo Ursus arctos que vagueou por estas terras até meados do século XVII.
As silhas eram construídas com blocos de granito (abundante na região), em parede dupla, com muros ligeiramente inclinados para fora, sendo a fiada superior ligeiramente saída e com altura sempre superior a 2,8 m. No seu interior, dispostos em pequenos socalcos e travados por pedras, eram colocados os cortiços, de forma circular e feitos de cortiça (daí o nome) e cobertos com um telhado de colmo. Algumas das silhas tinham pequenas portas que davam acesso ao interior.
As silhas, de forma a favorecer o trabalho e a saúde das abelhas, eram sempre construídas em encostas ensolaradas e abrigadas do vento, voltadas a nascente/sul. Eram construídas perto da água e de vastas extensões de matos formados por plantas melíferas, compostos por urzes (Erica spp.), carqueja (Pterospartum tridentatum ssp. tridentatum), tojo (Ulex spp) e giestas (Cytisus spp.).
 
PNPG - Branda de Gorbelas PNPG - Silha dos ursos
Branda de Gorbelas | silha dos ursos.
 

Atividades humanas

PNPG - espigueiros Garranos - Equus caballus celticus �AJBarros
Espigueiros (® AJBarros) | Garranos (® AJBarros).

As comunidades humanas do Parque Nacional da Peneda-Gerês assemelham-se pelas características próprias de regiões de montanha que partilham e distinguem-se pelas especificidades culturais que a história, o isolamento e os diferentes recursos locais lhes conferiram.

A agropecuária é a atividade dominante em quase todo o território do Parque. Uma agricultura de minifúndio assente em culturas cerealíferas (milho e centeio) e na produção de batata, de feijão e de diversos produtos hortícolas, complementa-se com a pastorícia, atividade que constituiu, durante muito tempo, o principal alicerce destas economias de montanha.

Embora o seu peso tenha vindo a diminuir, as raças autóctones como a barrosã e a cachena nos bovinos, a cabra-bravia nos caprinos e a ovelha-bordaleira nos ovinos, são ainda importantes fontes de rendimento.

Destaca-se também o garrano, cavalo luso-galiziano que se movimenta em liberdade pelas serras do Parque, pois apesar de ter perdido a sua função de meio de transporte e de auxiliar nas atividades agrícolas, é, até hoje uma espécie pecuária a privilegiar, não apenas pela sua robustez e adaptabilidade à serra, mas também porque se encontrava em perigo de extinção.

A atividade silvícola aparece em estreita ligação com a pastorícia e com a agricultura.

É aos baldios – terras incultas, mantidas em comum e geridas pelas comunidades locais – que a população vai buscar um conjunto de bens essenciais ao processo produtivo e à vida quotidiana: a lenha, a madeira e o mato para a cama dos animais, depois utilizado como fertilizante. É também da exploração florestal dos baldios, na sua maioria sob gestão conjunta do PNPG e das populações, que resulta uma receita importante para as Juntas de Freguesia ou Assembleias de Compartes, depois reinvestida na comunidade.

A apicultura e o artesanato alimentar (o fumeiro, em particular) constituem uma outra componente da atividade agrícola com grande tradição e importância no Parque Nacional da Peneda-Gerês.

Por sua vez, atividades tradicionais como a tecelagem (linho e lã) e a cestaria, fabrico de cestos e cestas e de vestuário, de que são exemplos as croças e coruchos, têm tido maiores dificuldades em resistir à generalização do uso de produtos industriais e são cada vez menos os artesãos que preservam o conhecimento das técnicas tradicionais de transformação de produtos naturais em utensílios de uso doméstico e, mais recentemente, decorativo.

Embora a agropecuária marque ainda de forma determinante a paisagem e o ritmo destas comunidades, o setor secundário, com a construção civil e as obras públicas, e o setor terciário, com o comércio, a restauração e a hotelaria, têm vindo a ganhar peso, surgindo como uma alternativa possível para quem não encontra nos animais e na terra o rendimento necessário. Mas para muitos outros, é ainda a emigração, para os centros urbanos e para o estrangeiro, a opção possível.

Se o ritmo do êxodo rural já não é hoje tão acentuado, são, no entanto, bem visíveis as marcas que décadas de emigração deixaram nestas comunidades: uma população maioritariamente feminina e envelhecida, que procura preservar a sua identidade mantendo a ligação centenária à terra e aos animais, contribuindo, assim, para a continuidade de uma paisagem em que as pessoas e a natureza se integram e que é, sem dúvida, um dos aspetos que melhor caracterizam o Parque Nacional.

PNPG - croça de homem 211-311 pxl

 tear Cestaria
Homem com croça | Tecedeira | Cesteiro.

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