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Plano de Ação do Saramugo

Saramugo - peixe dulciaquícola "criticamente em perigo" das ribeiras da bacia do Guadiana. O Saramugo, uma das espécies autóctones portuguesas mais ameaçadas.O Plano de Ação do saramugo. A ribeira do Vascão e o seu valor para a conservação do Saramugo. Plano de Emergência para a Salvaguarda da Ictiofauna Endémica e Ameaçada da Bacia Hidrográfica do Guadiana (ICNF). Controlo de espécies exóticas. Conservação ex-situ. Bibliografia

Link: Plano de ação do saramugo

Anaecypris hispanica Saramugo - CC Ribeira do Vascão
O saramugo Anaecypris hispanica (® Carlos Carrapato) e a ribeira do Vascão (® Ana Cristina Cardoso). 

 

O Saramugo Anaecypris hispanica é um peixe dulciaquícola considerado "criticamente em perigo". Ocorre em Portugal em apenas cinco ribeiras da bacia do Guadiana.
 

O Saramugo, uma das espécies autóctones portuguesas mais ameaçadas

O saramugo Anaecypris hispanica [PDF 132 KB] é um peixe dulciaquícola, da família dos ciprinídeos, residente e endémico da Península Ibérica, com uma distribuição restrita às bacias hidrográficas do Guadiana e Guadalquivir1. Em Portugal, ocorre essencialmente em pequenos cursos de água das ribeiras afluentes do rio Guadiana.
 
As alterações do habitat ocorridas na bacia do Guadiana são responsáveis pela diminuição acentuada da área de distribuição do saramugo e dos efetivos populacionais a partir da década de 70 do século XX2. Esta tendência manteve-se nos últimos anos3, resultando numa maior fragmentação das suas populações e um maior risco de extinção local na área de distribuição identificada no projeto LIFE – Saramugo4, razões que justificaram a atribuição do estatuto de ameaça mais elevado da UICN no Livro Vermelho dos Vertebrados de Portugal5, “criticamente em perigo” (CR).
 
As principais ameaças à conservação das suas populações são a perda ou a degradação de habitat provocada por ações antrópicas variadas, como a construção de barragens e açudes, a poluição, a extração de inertes e a captação de água são alguns desses exemplos6. A proliferação das espécies exóticas, espécies alienígenas ao ecossistema, é um dos fatores que intervêm ao nível dos processos biológicos e que constitui um dos maiores problemas da atualidade7. A hierarquização dos diferentes fatores de regressão é, no entanto, difícil, dado o sinergismo que apresentam.
 
A monitorização efetuada, nos últimos cinco anos, pelas equipas do ICNF/PNVG, nas dez sub-bacias em que tinha sido identificada a presença da espécie no decorrer do Projeto Life-Saramugo (2000), indica a sua permanência atualmente apenas em cinco sub-bacias, nomeadamente Ardila, Chança, Vascão, Foupana e Odeleite e, em algumas delas, com densidades populacionais que apontam para uma situação futura de pré-extinção. Por essa razão foi desenvolvido, em 2011, o Plano de Ação do Saramugo.
 

O Plano de Ação do saramugo

Tendo em conta que a comunidade piscícola do Guadiana constitui um património comum, reconheceu-se desde o início que a sua conservação efetiva teria que envolver as entidades e atores locais. Assim, o processo de desenvolvimento do plano de ação resultou de um total de cinco reuniões participadas, que contaram com a presença de 41 entidades com diferentes competências, nomeadamente de investigação, de gestão territorial e envolvendo ainda as associações locais que fazem parte do problema.

 

 

ICNF parceiro LIFE Saramugo

O projeto LIFE Saramugo prevé operacionalizar um conjunto de ações previstas no Plano de Ação do Saramugo

 

 

A ribeira do Vascão e o seu valor para a conservação do Saramugo

A ribeira do Vascão insere-se no sítio de importância comunitária PTCON0036 Guadiana [PDF 199 KB], tendo sido recentemente classificada internacionalmente como sitio RAMSAR, destacando-se o saramugo como um dos valores mais importantes para esta classificação. 

Esta ribeira apresenta comunidades piscícolas autóctones estáveis e bem distribuídas ao longo de todo o troço, facto raro comparativamente com as restantes sub-bacias do Guadiana. Para além disso, das 5 sub-bacias onde ocorre atualmente o saramugo, a sub-bacia do Vascão apresenta a população de saramugo mais viável a longo prazo, não só por apresentar maiores densidades mas também pela sua presença contínua em todo o troço da ribeira.

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Reabilitação fluvial

A preservação do ecossistema ribeirinho está intrinsecamente dependente do estado de conservação e no tempo de permanência da água nos pegos, que se formam durante o período de estio nas ribeiras mediterrânicas. As ações de recuperação fluvial que se têm desenvolvido centram-se, por isso, nestas massas de água.

É exemplo a ação desenvolvida no verão de 2015 no pego do moinho de Alferes na ribeira do Vascão, onde foi removida uma mancha de canavial, com a dimensão de 274 x 4 metros. Esta intervenção, financiada pela empresa SOMINCOR e implementada pela IMOBIENTE, constituiu a 1ª fase na recuperação daquele troço fluvial, que tem como objetivo a recuperação da vegetação ribeirinha. A recuperação da vegetação é de extrema importância na medida em que:

  1. Devido ao ensombramento, diminui a evaporação e mantem as condições físico-químicas da água mais adequadas à sobrevivência das espécies que se refugiam nos pegos;
  2. Fornece refúgio no emaranhado dos ramos e troncos;
  3. E promove a ocorrência de invertebrados que são uma fonte de alimento relevante para os peixes.

 

A remoção do canavial foi realizada por meios mecânicos e manuais. Após a remoção das toiças foi aplicada uma manta orgânica anti-erva, que tem como função impedir que a luz solar penetre e promova o rebentamento das toiças que aí tenham permanecido.

As plantas autóctones, que existiam no interior da mancha de canavial, foram conduzidas de modo a assegurar a sua sobrevivência e a contribuírem para a valoração do espaço.

A 2ª fase da operação será realizada no outono de 2016. A concretização desta fase é imprescindível uma vez que passará pela utilização de estruturas que auxiliam na consolidação e no desenvolvimento de salgueiros no talude.

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Mancha de canavial que foi removida (à esquerda) e aspeto esperado no final da intervenção (à direita).
Pelo meio, situação no final de setembro de 2015 (fotografias de Ana Cristina Cardoso e Teresa Silva).

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Plano de Emergência para a Salvaguarda da Ictiofauna Endémica e Ameaçada da Bacia Hidrográfica do Guadiana (ICNF)

O ano hidrológico de 2005/2006 caraterizou-se pela ocorrência de um fenómeno de seca extrema em Portugal continental. As ribeiras da bacia do Guadiana não correram nesse ano. A água manteve-se restrita em pequenos pegos, onde toda a vida das ribeiras aguardava o restabelecimento do caudal hidrológico. 

Foi necessário desenvolver e implementar o “Plano de Emergência para a Salvaguarda da Ictiofauna Endémica e Ameaçada da Bacia Hidrográfica do Guadiana” . Este plano tinha como principais objetivos monitorizar as condições de cada pego nas ribeiras de ocorrência de saramugo e desenvolver ações para a sua proteção, nomeadamente: retirar os peixes exóticos da ribeira de modo a diminuir a biomassa piscícola que competia por oxigénio e por outros recursos naqueles espaços confinados; translocação de espécimes para pegos de maiores dimensões e salvaguarda de indivíduos de saramugo em cativeiro até ao final do evento de seca extrema.

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Controlo de espécies exóticas

Constituindo as espécies piscícolas exóticas, ou não indígenas, um fator de ameaça à conservação das autóctones9, desde 2006 que o então ICNB, atual ICNF, promove ações de controlo de exóticas em locais de ocorrência histórica de saramugo, incidindo, nos últimos anos, sobretudo nesta ribeira do Vascão. 

 

Estas ações de remoção de peixes não indígenas têm contado com a participação de voluntários(as). As ações desenrolam-se uma vez por semana nos meses de agosto, setembro e outubro e apenas é preciso trazer fato de banho e boa disposição.

 

Voluntariado - controlo de exóticas - LB 

Remoção canavial - ACC

Voluntários em ação de controlo de exóticas na ribeira do Vascão (® Liliana Barrosa). Ação de remoção do canavial e recuperação da vegetação ribeirinha naquela ribeira (WWF, com apoio da Coca-Cola) (® Ana Cristina Cardoso).

 

De forma a reforçar o esforço desenvolvido, em 2013, foi publicada a Portaria nº 170/2013, de 2 de maio, que retira o período de defeso e limites de dimensão do achigã na ribeira do Vascão. Ambas as medidas contribuem para atingir o objetivo 4.2 – Diminuir a densidade de espécies exóticas, previsto no Plano de Ação do Saramugo.

 

 

Conservação ex-situ

No que respeita à conservação ex-situ do saramugo, destaca-se a manutenção em cativeiro de cerca de 250 indivíduos, nascidos nas instalações do Parque Natural do Vale do Guadiana (ICNF), em Mértola. Aqui estão representados indivíduos das cinco sub-bacias onde a espécie ainda ocorre, que correspondem, no final, a quatro unidades de conservação distintas dada as diferenças genéticas que se verificam entre as populações. As ações de reforço das populações selvagens poderão ser um próximo passo na conservação da espécie.

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Bibliografia

  • 1Doadrio I. (Ed.) 2002). Atlas y Libro Rojo de los Peces Continentales de España. 2ª ed. Dirección General de Conservación de la Naturaleza, Museo Nacional de Ciencias Naturales, Madrid.
  • 2Collares-Pereira, M.J., Cowx, I.G., J.A. Rodrigues, L. Rogado, F. Ribeiro, A. Mendes, P. Pichiochi, P. Salgueiro, M.J. Alves & M.M. Coelho (2000a). Uma estratégia de conservação para o saramugo (Anaecypris hispanica), um endemismo piscícola em extinção. Relatório Final, Programa Life-Natureza, contrato B4-3200/97/280, Volume I (121pp.) e Volume II (13 Anexos).
  • Collares-Pereira, M.J., Cowx, I.G., Rodrigues, J.A., Rogado, L., da Costa, L.M., 1999. The status of Anaecypris hispanica in Portugal: problems of conserving a highly endangered Iberian species. Biological Conservation 88, 207–212.
  • Collares-Pereira, M.J., Pires, A.M., Coelho, M.M., Cowx, I.G., 1998. Towards a conservation strategy for Anaecypris hispanica, the most endangered non-migratory Fish in Portuguese streams. In: Cowx, I.G. (Ed.), Stocking and Introduction of Fish. Fishing News Books, Blackwell Science, Oxford, pp. 437-449.
  • 3 e 8Rogado, L., Cardoso, A. C., Carrapato, C. (2005). Resumo dos trabalhos efetuados pelo Instituto da Conservação da Natureza (ICN), para a monitorização da ictiofauna na Bacia do Guadiana para avaliação e minimização dos efeitos da seca, de 15 de junho a 30 de setembro de 2005. Relatório interno do ICN.
  • Cardoso, A.C.& Carrapato, C. 2007 Intervenção saramugo. Relatório interno do ICNB/PNVG.
  • Cardoso, A.C.& Carrapato, C. 2008 Intervenção saramugo. Relatório interno do ICNB/PNVG.
  • Cardoso, A.C.& Carrapato, C. 2010 Intervenção saramugo-2010. Relatório interno do ICNB/PNVG
  • 4 e 6 Collares-Pereira, M.J., Cowx, I.G., J.A. Rodrigues, L. Rogado, F. Ribeiro, A. Mendes, P. Pichiochi, P. Salgueiro, M.J. Alves & M.M. Coelho (2000a). Uma estratégia de conservação para o saramugo (Anaecypris hispanica), um endemismo piscícola em extinção. Relatório Final, Programa Life-Natureza, contrato B4-3200/97/280, Volume I (121pp.) e Volume II (13 Anexos).
  • Collares-Pereira, M.J., J.A. Rodrigues, L. Rogado & I.G. Cowx (2000b). Plano de Gestão para a Conservação do Saramugo. Programa Life-Natureza, contrato B4-3200/97/280, CBA-FCUL, 75pp+anexos.
  • 5Cabral, M.J. (coord.), Almeida J., Almeida P.R., Dellinger T.R., Ferrand de Almeida N., Oliveira M.E., Palmeirim J.M., Queiroz A.I., Rogado L. & Santos-Reis M. (eds.) 2005. Livro Vermelho dos Vertebrados de Portugal. Instituto da Conservação da Natureza. Lisboa. 660 pp.
  • 7 e 9Hermoso, V, M. Clavero, F. Blanco-Garrido, J. Prenda (2010). Invasive species and habitat degradation in Iberian streams: an analysis of their role and interactive effects on freshwater fish diversity-loss. Ecological Society of America.

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