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Águia-imperial-ibérica

Águia-imperial-ibérica
Programa de acompanhamento da população de águia-imperial-ibérica (Aquila adalberti) em Portugal. A espécie. Evolução da população na última década. Sucesso reprodutor e causas de insucesso. Ameaças. Algumas ações de conservação. Grupo de Trabalho da águia-imperial-ibérica. Colabore.

Programa de acompanhamento da população de águia-imperial-ibérica em Portugal

A informação aqui apresentada foi compilada pelo Grupo de Trabalho da águia-imperial-ibérica e decorre dos trabalhos que, desde 2008, vêm sendo desenvolvidos por este grupo, o qual está integrado no ICNF.
 

A espécie

Aguia-imperial-ibérica  Distribuição atual na Península Ibérica da águia-imperial-ibérica
Adulto de águia-imperial-ibérica (® René Pop & The Sound Aproach) | Distribuição atual na Península Ibérica.

A águia-imperial Aquila adalberti [PDF 150 KB] é uma das espécies mais emblemáticas da Península Ibérica. Ave de rapina de grande envergadura, impressiona pela sua imponência. Esta águia é uma espécie endémica do oeste do Mediterrâneo, estando atualmente restrita à Península Ibérica, onde nidificam cerca de 400 casais (396 em Espanha e 11 em Portugal).

Devido à pequena dimensão desta população, e constituindo uma espécie de rapina rara no mundo, está atualmente classificada como Vulnerável pela Lista Vermelha da IUCN (IUCN, 2008) e como Criticamente em Perigo pelo Livro Vermelho dos Vertebrados de Portugal.

Em Portugal, tem criado na proximidade do Parque Natural do Tejo Internacional, também classificado como ZPE - Zona de Proteção Especial do Tejo Internacional, Erges e Ponsul [PDF 156 KB], e nas ZPE de Moura, Mourão, Barrancos [PDF 156 KB], Castro Verde [PDF 187 KB] e Vale do Guadiana [PDF 153 KB], parcialmente coincidentes com o Parque Natural do Vale do Guadiana.
 

Evolução da população na última década

A águia-imperial-ibérica foi considerada extinta em Portugal, enquanto espécie reprodutora, na década de 80. Indivíduos isolados continuaram a ser observados, mas a nidificação só voltou a ser confirmada em 2003, na envolvente do Parque Natural do Tejo Internacional. Desde aí, a população tem vindo a aumentar lentamente até atingir, em 2013, 11 casais confirmados.

Resumo evolu pop nac águia–imperial-ibérica
Figura 1: resumo da evolução da população nacional de águia–imperial-ibérica, desde o seu reaparecimento em 2003.

A área de distribuição da espécie também aumentou desde 2003, sendo que, atualmente, a espécie nidifica também nas Zonas de Proteção Especial de Moura, Mourão, Barrancos, de Castro Verde e do Vale do Guadiana, bem como na envolvente destas ZPE.

Evolução área distribuição
Figura 2: evolução da área de distribuição e do número de casais de águia-imperial-ibérica por região, entre 2003 e 2013.
 

Sucesso reprodutor e causas de insucesso

Na figura 3 encontra-se a evolução da produtividade dos casais confirmados em Portugal. De salientar porém, que, geralmente, não se faz um controlo que permita determinar o número de crias nascidas com todo o rigor, quer porque o interior de alguns ninhos é difícil de observar mas também para evitar perturbação adicional nas proximidades dos ninhos. A produtividade variou bastante de ano para ano, encontrando-se, em 2013, próximo do valor médio na Península Ibérica (0,81; n=208 casais).
 
Produtiv pop águia-imp-ibérica PT
Figura 3: produtividade da população de águia-imperial-ibérica em Portugal, entre 2003 e 2013.
 
Em termos de causas de insucesso reprodutor, desde 2003, as causas de perda das crias foram:
  • caínismo (ocorre quando uma das crias, normalmente a mais velha e/ou mais forte, mata uma ou mais das outras crias, de modo a aumentar a sua probabilidade de sobrevivência);
  • golpe de calor (em situações extremas de calor, se as aves parentais deixam de fazer sombra à cria durante algum tempo, esta pode morrer por desidratação) ou outras condições meteorológicas desfavoráveis (muita chuva, p. ex.);
  • inanição (quando as aves parentais são ainda inexperientes ou devido à morte de um ou dos dois progenitores); e
  • queda do ninho, durante situações meteorológicas desfavoráveis ou quando o ninho está muito instável.

 

Em termos de sobrevivência das crias, constata-se que a situação global é positiva, sendo que a maioria das crias nascidas se desenvolve com sucesso até se tornar voadora.

Sobrev crias relacao n casais incubar
Figura 4: sobrevivência das crias e relação com o número de casais a incubar, entre 2003 e 2013.
 

Ameaças

Uma das evidências de mortalidade ou de um fator de perturbação num determinado território é o facto de ocorrer o desaparecimento de um ou dos dois membros dos casais conhecidos e, em alguns casos, a substituição dessas aves. Em condições favoráveis, a probabilidade de um membro de um casal estabelecido abandonar o território sem causas externas é bastante reduzida. Até 2014, confirmaram-se pelo menos 8 casos de desaparecimento e, eventual, substituição dos casais conhecidos.
 
As causas do desaparecimento são, em muitos casos, desconhecidas, mas, em alguns casos pontuais, encontraram-se os cadáveres das aves, tendo-se detetado aves mortas por:
  • envenenamento;

"Vamos falar de veneno" [PDF 4,20MB]

  • abate a tiro; e
  • eletrocussão em postes elétricos.

 

Algumas ações de conservação


Em termos de medidas de conservação da espécie, o Grupo de Trabalho da águia-imperial-ibérica desenvolve medidas a diferentes níveis, desde as relacionadas com a redução de fatores de perturbação ou de ameaça do sucesso reprodutor, sejam de caráter local sejam de caráter nacional, até à colaboração na gestão do habitat, designadamente ao nível da gestão cinegética e florestal.

De seguida desenvolvem-se algumas dessas ações de conservação.

1- Recuperação de ninhos e ninhos artificiais
Com alguma frequência, os casais constroem o seu ninho em árvores que não têm uma estrutura adequada para aguentar o ninho em condições meteorológicas adversas, como ventos fortes. Esta opção decorre da escassez de suportes de nidificação adequados à nidificação. Nestes casos, o Grupo de Trabalho da águia-imperial-ibérica, por vezes em colaboração com o Grupo de Trabalho da águia–imperial espanhol, intervém através do reforço dos ninhos construídos pelas aves ou através da construção de novos ninhos artificiais em árvores adequadas que existam na proximidade. Em pelo menos três casos, o ninho artificial foi ocupado por águia de Bonelli.

2 - Morte acidental em linhas elétricas
A eletrocussão em linhas elétricas constitui a principal causa de morte não natural conhecida na Península Ibérica. Desde 2003, foram encontradas pelo menos 7 águias-imperiais imaturas eletrocutadas, todas no Alentejo.

Águia-imperial-ibérica em poste elétrico Juvenil de águia-imperial-ibérica
Águia-imperial-ibérica num poste elétrico (® Roberto Sánchez) | Juvenil (® Killian Mullarney).

Desde 2003, existe um protocolo envolvendo a EDP, o ICNF, a SPEA e a QUERCUS com o objetivo de estudar esta causa de mortalidade da avifauna e minimizar os seus efeitos. Neste âmbito, já se procedeu à correção de cerca de 70 km de linhas elétricas em áreas coincidentes com a área de distribuição da águia-imperial-ibérica.

 

3 - Manutenção dos contactos com os proprietários e gestores de caça

 

Construção de abrigos para o coelho-bravo - CC

A colaboração permanente com as e os Proprietários e/ou Gestores de caça das propriedades onde as aves se alimentam mantém-se um eixo de atuação para a proteção da águia-imperial-ibérica. Nesse sentido, o Parque Natural do Vale do Guadiana tem vindo a desenvolver ações de fomento de coelho-bravo, designadamente construção de maroços, em territórios de águia-imperial-ibérica.

Construção de abrigos para coelho-bravo (® Carlos Carrapato).

Em termos de gestão cinegética e florestal, o ICNF assegura o contacto com as e os gestores e proprietários para assegurar a manutenção das condições de tranquilidade para as aves.

4 – Ações relacionadas com a colocação ilegal de venenos
A colocação de iscos envenenados continua a ser uma prática relativamente comum em Portugal, com maior incidência em algumas regiões do país. Esta prática está relacionada com o chamado “controlo de predadores”, tendo, frequentemente, por fundamento o pressuposto que os predadores causam impacto negativo sobre as populações de algumas espécies cinegéticas (coelho-bravo, perdiz). Cada vez mais, sabe-se que este pressuposto não é justificado e que as populações de predadores têm um papel fundamental na gestão natural das populações de presas; por este facto hoje em dia refere-se a necessidade de “gestão da predação” por oposição ao “controlo de predadores”.
Noutros casos, o uso ilegal de venenos constitui uma tentativa de controlar os ataques de cães ferais aos rebanhos.

Em Portugal, tivemos até hoje uma situação confirmada de morte de uma águia-imperial-ibérica por envenenamento, existindo a possibilidade de uma segunda ave também ter sido morta pela mesma causa.

5 - Seguimento de aves com transmissores rádio e satélite
Em 2007, foram marcados 3 juvenis com emissores rádio. Um deles deixou de emitir, devido a defeito técnico, pouco tempo após a marcação, enquanto os outros dois têm continuado a emitir. Os dados recebidos mostram que as aves foram detetadas frequentemente em Espanha e na zona fronteiriça, tendo ambos voltado a visitar o território original onde nasceram pelo menos numa das épocas de reprodução seguintes.

Durante 2009, assegurou-se a possibilidade de marcação de uma ave adulta com um transmissor de satélite (PTT) através de um Protocolo estabelecido entre o (atual) ICNF e a Quercus – Associação Nacional de Conservação da Natureza.

6 - A dieta da águia-imperial-ibérica
O estudo da dieta da águia-imperial-ibérica em Portugal tem vindo a ser desenvolvido através recolha e posterior análise das egagrópilas dos casais conhecidos. O gráfico mostra os resultados de um estudo da dieta dos casais localizados nas ZPE de Castro Verde e do Vale do Guadiana, onde se demonstra a importância das populações de coelho-bravo nos territórios de caça desta espécie.
 

Dieta-casais-aguia-imperial-iberica
Figura 5: dieta dos casais de águia-imperial-ibérica nas ZPE de Castro Verde e de Vale do Guadiana
(fonte: Carrapato 2013).

Grupo de Trabalho da águia-imperial-ibérica

Em 2008, o então ICNB constituiu o Grupo de Trabalho da águia-imperial-ibérica, responsável por definir e propor as linhas prioritárias de atuação para a conservação da espécie em Portugal bem como pela sua consequente implementação. Este grupo é constituído por técnicos e dirigentes do ICNF e pelo especialista sobre a espécie, Dr. Carlos Pacheco.

Colaboração com Espanha

Na XIX Cimeira Luso Espanhola (2003), os Ministros responsáveis pela tutela do Ambiente e Conservação da Natureza de Portugal e Espanha acordaram que o lince-ibérico e a águia-imperial-ibérica seriam as 2 espécies alvo da colaboração em termos de conservação da natureza. Nesse âmbito, foi assinado, em 2004, o Memorando de Entendimento entre os então MAOT e MADRP, da República Portuguesa, e o Ministério del Medio Ambiente, do Reino de Espanha, para a cooperação sobre a águia-imperial-ibérica e o lince, processo coordenado pelo (atual) ICNF e pela Dirección General para la Biodiversidad do Ministério del Medio Ambiente.

Os Grupo de Trabalho da águia–imperial-ibérica dos dois países reúnem regularmente, beneficiando Portugal da experiência de longa data do grupo espanhol na recuperação da espécie.

Colabore

O ICNF pede a todos(as) os(as) ornitólogos(as) que observem águia-imperial-ibérica no território nacional que lhe façam chegar informação associada, sugerindo, como meio mais eficaz, o envio de um sms no momento da observação para Carlos Carrapato (932 735 792), se se tratar de uma observação na região sul de Portugal, e para Carlos Pacheco (965 617 147), se for uma observação na região centro.

Preferencialmente, deverá ser remetida a seguinte informação:

  • coordenadas GPS, se disponível (se não for possível, referências o mais aproximadas possível do local);
  • idade da ave (se possível);
  • data e hora da observação; e
  • se adequado, direção de movimento, indicação do poiso usado e qualquer outra informação relevante.


Esta informação será muito importante para tornar mais fina a malha de recenseamento de indivíduos desta espécie e para possibilitar deslocações imediatas ao local pelas e pelos técnicos envolvidos neste programa. A identidade dos/das informantes será sempre associada a estas observações, designadamente se as mesmas forem divulgadas ou publicadas.

 

Para mais informação sobre esta espécie, contacte:
ICNF | Manuela Nunes, coordenadora do Grupo de Trabalho da águia-imperial-ibérica
E-mail: manuela.nunes@icnf.pt

 

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